[MUSIC] O Efeito IA+brat: Autencidade em Alta
2026 é um ano muito dual em diversos aspectos. Mas, tentando me ater aqui a algum foco, a dualidade que queria discutir para esse ano tem a ver mais com a essência do que é ser humano.
Em pouco anos, vimos algoritmos que antes produziam imagens borradas (e por vezes grotescas) de seres humanos, agora criando vídeos críveis longos, trocando corpos dançando por outros corpos, criando e recriando vozes. Num primeiro e raso olhar, daria pra dizer que hoje, mais do que nunca, qualquer um poderia ser um artista musical. Você não precisa compor, escrever, cantar, tocar, mixar, produzir nada: basta caprichar no ✨prompt✨ que ele gera pra você um áudio com instrumental, alguma melodia, e uma voz cantando no mood que você queria. Tudo polido, afinado, encaixado, rimado. Parece que, mais do que nunca, a barra fica agora mais alta por uma arte absurdamente polida e refinada.
Mas, indo para a realidade... É isso mesmo que tem acontecido? Temos alguns casos de "artistas de IA" que viralizaram? Talvez, dependendo da métrica. Mas, de duas uma: ou o fator humorístico é a base dessa viralização (como a paródia "São Paulo" da clássica "Empire State of Mind" de Alicia Keys), ou é uma IA que não está claramente posta como tal para o público, gerando depois de algum tempo um choque em pessoas que eventualmente tiveram o IArtista recomendado pelo algoritmo e começaram a incluir em algumas playlists pessoais. Até agora, não parece que o público tem comprado "Música de IA" por ser "Música de IA".
Somando um outro ponto, vamos voltar dois anos no tempo, para quando a artista britânica Charli xcx (rip XCX) lançou seu aclamado "brat". Se eu pudesse definir esse álbum, ou melhor, essa era toda numa só palavra, eu usaria: autenticidade. Da capa simples, com baixa resolução como se fosse um "estático" de twitter, à mistura de letras sobre drogas e festas contra o tic-tac do relógio biológico para se tornar mãe, nada nesse álbum poderia ter sido feito por outra pessoa. Em destaque, um dos pontos altos da era foi Charli ter escrito a canção "Girl, so confusing" sobre sua relação cinzenta e nada fácil com Lorde, sua companheira de indústria, e isso ter causado uma resposta genuína da neozelandesa, a ponto de durante o desenrolar do álbum surgir um remix com versos das duas sobre essa relação conturbada, sobre serem mulheres na indústria do entretenimento e a dificuldade da própria vida humana, de certo modo.
Parece que quase nada dessa era coube direito em um script. Ou melhor, em um prompt.
Foi observando os movimentos da indústria ao longo de tantos anos e olhando para dentro, agora mais do que nunca, que Charli conseguiu construir essa era ao vivo, junto com o público, reverberando para novos fãs e alcançando novos patamares que outrora pareciam inalcançáveis para uma cantora que já estava há mais de dez anos no jogo.
E essa autenticidade, mais do que nunca, tem sido refletida em mais trabalhos, ano após ano.
Numa era em que tudo poderia ser extremamente polido e detalhado em um rápido passeio por um teclado de notebook, em que tantos flyers de IA idênticos enchem os restaurantes, tantas pessoas entram na mesma trend para produzir fotos parecidas e irreais, o que vemos no lado da arte é justamente o oposto: o autêntico, o humano, o imperfeito é o que tem movido a atenção das pessoas.
O primeiro grande exemplo desse efeito em 2026 é a ascensão meteórica de Slayyyter, cantora estadunidense que começou a fazer músicas em seu quarto no computador em casa com o apoio de um punhado de fãs, e que agora alcançou o sucesso com "WOR$T GIRL IN AMERICA" num álbum "grunge-pop": distorções, camadas sobrepostas e compactadas de vocal, instrumentos estourados, batidas graves e músicas que não seguem o padrão tradicional verso-refrão-verso-refrão-break-refrão. Mas o álbum não é só isso, ele também constrói um universo visual coeso, em ambientes nos quais ela cresceu, com roupas que ela fez, tomando direções estéticas decididas pro ela e até tendo ela mesma dirigindo alguns dos vídeos. E assim como Charli, ela mistura traumas pessoais às letras que parecem mais banais, como ao abordar o pai que a abandonou, ou a excelente "BRITTANY MURPHY." que fecha todo o caos em forma de mulher que é esse álbum. Ninguém mais teria conseguido fazer esse álbum, senão ela.
Outro, ainda mais recente, é o "Popstar" de Tinashe. Assim como Charli e Slayyyter, Tinashe está há anos já nesse jogo, comendo pelas beiradas, tendo passado por uma grande gravadora, e conseguido o seu primeiro viral "Nasty" após abandonar a tal gravadora. Tudo isso é um pano de fundo e base sólida para o cenário do álbum, que mergulha na fama e na noite, mas também aborda frustrações e términos com sinceridade. O instrumental "risca-panela" do hit "Melatonin" jamais teria saído de uma IA polida, e muito menos os encaixes bruscos que acontecem entre várias faixas do álbum: A vulnerabilidade de "Empty Stadium" justaposta à sequência "Too Easy" e "Melatonin" serve para reforçar o aspecto de cada um desses lados. Misturando assim suas referências pessoais, seu amplo catálogo em pop, hip-hop, r&b, house e todo seu desejo que sempre existiu de destruir barreiras musicais, Tinashe mistura Britney Spears e Nine Inch Nails em "Nobody Wanna Dance Anymore" de um jeito que parece too easy.
Todo esse movimento reforça como, quando saímos do racional e falamos de emoções e artes, o que estamos buscando é o mais humano possível: queremos sinceridade, queremos contradições mas que de algum modo fazem sentido, queremos o lado festivo da vida mas também saber o que acontece quando todo esse êxtase passa e somos deixados a sós com nossos fantasmas. A busca pelo humano na música tem ido até além do som em si: capas de álbum com ilustrações (por exemplo, Urias - CARRANCA), colagens (Marina Sena - Coisas Naturais) e intervenções manuais (Lady Gaga - MAYHEM) estão se tornando recorrentes, e conseguem criar algo cuja grandeza é ser imperfeito. Nenhuma folha é rasgada do mesmo jeito que outra, dois riscos de lápis nunca imprimem a mesma textura no papel, dois pedaços de vidro não refletem a luz do mesmo jeito. E isso também é o cerne de álbuns como "brat", "WGIA" e "Popstar". São álbuns que mergulham na aparente incoerência do ser humano, o lado polido e o lado escondido da alma. E essa incoerência é o que dá sentido a tudo.
Pra fechar isso tudo, e causar uma reflexão em você (e em mim também), vou parafrasear um reel que me apareceu há algum tempo: Você, muitas vezes, não gosta das artes que produz porque você consegue ver que foi você quem fez elas. Mas isso não é a maior fraqueza da sua arte, e sim a maior força. Tem coisas que ninguém faz como você, ideias que só você vai conseguir unir, exageros que só você vai alcançar. Ao invés de se forçar a desenhar em estilo "clássico", "realista" ou "anime perfeito", você só poda suas maiores qualidades. Gosta de desenhar cabelos enormes? Exagere, cada vez mais. Não consegue traçar curvas direito? Pois faça tudo curvo, até as casas! Seu ponto fraco são mãos? Então desenhe mãos que são apenas um círculo de propósito, exageradamente. Ao invés de exercícios que procurem "corrigir" seu estilo, repita ele. Reforce ele. Abrindo mão de fazer bonito onde tem dificuldade, sua energia acaba sendo posta onde você mais sente prazer em produzir. Se habitue com seus pontos fortes, e você encontrará seu conforto e sua identidade.
E numa era em que tudo parece sem textura, amarelado e padronizado, mostrar o seu lado imperfeito e pessoal ao mundo é a coisa mais autêntica que podemos fazer. Seja na música, seja no papel, seja nas interações humanas. Algoritmo algum pode reproduzir nossas incoerências, nossos medos e nossos desejos. Então viva todos eles, pois ninguém mais vai poder fazer isso.




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